Procrastinação e uso excessivo de jogos/telas: quando a fuga se torna um padrão
Entenda como a procrastinação pode estar ligada ao uso excessivo de jogos e telas, por que isso acontece e como a terapia pode ajudar a romper esse ciclo.
Publicado em:
27/08/2026 19:54
O que é a procrastinação?
A procrastinação é o adiamento voluntário de uma tarefa, mesmo sabendo que esse adiamento pode trazer consequências negativas.
Não se trata apenas de deixar algo para depois: envolve, muitas vezes, evitar um desconforto imediato, como ansiedade, tédio ou insegurança diante daquilo que precisa ser feito.
Por exemplo, imagine que uma pessoa precise entregar um relatório importante.
Ela pode pensar:
"Só vou jogar uma partida rápida antes de começar."
O que era para ser rápido pode se estender por horas, e a tarefa original continua adiada.
Como o uso excessivo de jogos e telas se conecta com a procrastinação?
Jogos, redes sociais e outros conteúdos digitais são planejados para prender a atenção e oferecer recompensas rápidas e constantes.
Isso os torna uma forma de fuga especialmente eficaz diante de tarefas que geram desconforto, como um trabalho difícil, uma conversa que a pessoa está evitando ou uma responsabilidade que parece grande demais.
Uma pessoa que usa jogos ou telas como fuga da procrastinação pode apresentar:
- perda da noção do tempo ao usar o celular, o computador ou o videogame;
- dificuldade em parar mesmo quando percebe que deveria fazer outra coisa;
- sensação de alívio imediato ao jogar ou usar redes sociais, seguida de culpa;
- adiamento repetido de tarefas específicas, sempre substituídas pelo mesmo tipo de distração;
- irritação quando é interrompido durante o uso de jogos ou telas;
- acúmulo de tarefas e aumento da ansiedade conforme os prazos se aproximam.
Os sintomas e a intensidade podem variar de pessoa para pessoa.
Como a TCC pode ajudar nesse padrão?
A TCC não busca simplesmente "proibir" o uso de jogos ou telas.
O tratamento procura compreender por que esse comportamento se tornou a forma preferida de lidar com o desconforto e como isso mantém o ciclo de procrastinação.
A partir disso, o psicólogo pode trabalhar diferentes estratégias.
1. Identificação dos pensamentos automáticos
Pensamentos automáticos são interpretações que surgem rapidamente diante de determinadas situações.
Uma pessoa pode pensar:
"Só mais cinco minutos e eu começo." "Eu preciso relaxar antes de fazer isso." "Depois eu recupero o tempo perdido." "Essa tarefa é tão desagradável que prefiro nem pensar nela agora."
Muitas vezes, esses pensamentos aparecem tão rapidamente que parecem decisões conscientes, quando na verdade funcionam como um piloto automático.
Na TCC, o paciente aprende a identificá-los e analisá-los.
2. Reavaliação de pensamentos
Identificar um pensamento não significa simplesmente se cobrar para "ter mais disciplina".
O objetivo é avaliar se aquela interpretação está realmente ajudando.
Por exemplo:
Pensamento: "Eu só consigo lidar com essa tarefa se antes eu jogar um pouco."
O paciente pode aprender a questionar:
- O que costuma acontecer depois que eu começo a jogar?
- Esse momento de fuga realmente diminui meu desconforto com a tarefa, ou só adia o problema?
- Existe outra forma de lidar com esse desconforto inicial?
Esse processo pode ajudar a construir uma relação mais consciente com o uso de jogos e telas.
3. Identificação dos gatilhos
O uso excessivo de jogos e telas como fuga costuma estar associado a determinados gatilhos, como tédio, cansaço, ansiedade diante de uma tarefa específica ou a sensação de estar sobrecarregado.
A TCC ajuda o paciente a identificar em quais momentos e diante de quais tarefas esse padrão costuma aparecer, o que facilita intervir antes que o ciclo se repita.
4. Enfrentamento gradual das tarefas evitadas
Evitar a tarefa através dos jogos ou das telas pode proporcionar alívio imediato.
No curto prazo, a pessoa sente menos desconforto.
Mas essa evitação também reforça a ideia de que a tarefa é grande demais ou desagradável demais para ser enfrentada agora.
Por isso, dependendo do caso, o tratamento pode trabalhar a divisão da tarefa em etapas menores e o enfrentamento gradual, começando por períodos curtos e sem exigir perfeição.
Esse processo é planejado e acompanhado pelo psicólogo.
5. Desenvolvimento de estratégias para lidar com o impulso de fugir
A terapia também pode ajudar o paciente a desenvolver recursos para lidar com a vontade de recorrer aos jogos ou às telas diante de uma tarefa difícil.
Podem ser trabalhadas estratégias relacionadas a:
- organização de tempo e prioridades;
- identificação de gatilhos e pensamentos;
- tolerância ao desconforto inicial de começar uma tarefa;
- ajustes no ambiente, reduzindo estímulos que facilitam a distração;
- mudanças comportamentais graduais.
O objetivo é ampliar a capacidade de lidar com tarefas difíceis sem que os jogos ou as telas sejam a única forma de alívio.
Esse padrão está sempre relacionado a um vício em jogos?
Nem sempre.
Usar jogos ou telas como forma recorrente de fuga da procrastinação não significa, necessariamente, que exista uma dependência.
Em alguns casos, porém, o uso pode se tornar mais intenso, difícil de controlar e prejudicial em diferentes áreas da vida, o que pode indicar uma dependência em jogos ou uma relação de maior gravidade com o uso de telas.
Por isso, uma avaliação profissional é importante para compreender qual é o quadro específico e qual abordagem é mais adequada para cada pessoa.
Quando procurar terapia para esse padrão?
Recorrer a jogos ou telas ocasionalmente para relaxar faz parte da rotina de muitas pessoas.
Entretanto, pode ser importante procurar ajuda quando esse comportamento:
- acontece com frequência antes de tarefas importantes;
- interfere no trabalho, nos estudos ou nos relacionamentos;
- gera acúmulo de responsabilidades e aumento da ansiedade;
- vem acompanhado de dificuldade em controlar o tempo de uso;
- provoca culpa ou frustração recorrentes;
- parece difícil de mudar sozinho.
Não é necessário esperar que a situação se torne mais intensa para procurar ajuda.
É possível fazer terapia online para esse tipo de dificuldade?
Sim.
A psicoterapia pode ser realizada de maneira online, desde que sejam respeitadas as condições profissionais e regulamentações aplicáveis.
Para algumas pessoas, o atendimento psicológico online pode facilitar o acesso à terapia por permitir maior flexibilidade de horários e evitar deslocamentos.
O mais importante é que o paciente tenha um ambiente adequado e privacidade durante a sessão.
A terapia elimina completamente a vontade de usar jogos ou telas como fuga?
Não necessariamente — e esse não é o único objetivo do tratamento.
Buscar momentos de lazer, incluindo jogos e telas, faz parte de uma rotina equilibrada.
O objetivo da terapia não é eliminar esse tipo de atividade, mas ajudar a pessoa a perceber quando ela está sendo usada como fuga recorrente e a desenvolver formas mais funcionais de lidar com o desconforto de começar uma tarefa.
Conclusão
A procrastinação relacionada ao uso excessivo de jogos e telas costuma envolver uma fuga de desconfortos como ansiedade, tédio ou insegurança diante de uma tarefa.
Durante a terapia, podem ser identificados pensamentos automáticos, gatilhos, padrões de evitação e estratégias que ajudam o paciente a lidar melhor com o
impulso de adiar através das telas.
Se esse padrão está interferindo na sua rotina, no seu desempenho ou nos seus relacionamentos, buscar acompanhamento psicológico pode ser um passo importante.
A avaliação de um profissional permite compreender melhor o que está acontecendo e definir o tratamento mais adequado para cada pessoa.
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